quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Poesia Liberada de Artur Gomes


Há uma passagem, em o Auto do Frade, de João Cabral, que me chamou a atenção:

“ – fazem-no calar porque, certo,
sua fala traz grande perigo.
- dizem que ele é perigoso mesmo
falando em frutas, passarinhos”.

Vislumbro aí uma espécie de definição do alto poder transgressor da poesia, do poeta, da arte em geral: deixar fluir uma energia de protesto e indignação, crítica e iluminação da existência, qualquer que seja o pretexto ou o ponto de partida.

Por exemplo - : Suor & Cio, novo poemário de Artur Gomes. Na sua primeira parte (Tecidos Sobre a Terra), lemos um testemunho direto sobre as misérias e sofrimentos na região de Campos dos Goytacazes, interior fluminense. Não se canta amorosamente as lavouras de cana e grandes usinas, os aceiros e céus de anil. Ao contrário. Ouvimos uma fala que “traz grande perigo”, efetivamente, ao denunciar – com aspereza e às vezes até com extremo rancor – a situação histórico-social, bruta e feroz, selvagem e primitiva, da exploração do homem no contexto do latifúndio e da monocultura.

usina mói a cana
o caldo e o bagaço
usina mói o braço
a carne o osso”.

Mas esta poesia dura, cortante e aguda, mantém igualmente a sua força de transgressão – continua revolucionária e perigosa – mesmo quando tematiza (principalmente em Tecidos Sobre A Pele, segunda parte do livro) as frutas, ou prazer sexual, os seios, o carnaval, o mar, e os impulsos eróticos. Por detrás dos elementos bucólicos e paradisíacos (só nas aparências, bem entendido), eis que explode o censurado o reprimido, o que não tem vergonha nem nunca terá:

arando o vale das coxas
com o caule da minha espada
no pomar das tuas pernas
eu planto a língua molhada”.

Por isso, frequentemente os poemas se debruçam sobre o próprio ofício do poeta, e sobre o próprio sentido do fazer artístico. Ofício de artista, experiência de poeta: presença do risco e da violação das normas injustas: carnavalizando, desbundando a troup-sex, infernizando o céu e santificando a boca do inferno, denunciando o rufo dos chicotes, opondo-se aos donos da vida que controlam o saldo o lucro e o tesão.

Os versos de Artur Gomes querem ser lidos, declamados, afixados em cartazes, desenhados em camisas. E vieram para ficar nas memórias e bibliotecas da nossa gente, apesar do suor e do cio, graças ao suor e ao cio:

com um prazer de fera
eum punhal de amante” .

Uilcon Pereira
são paulo, julho, 1985


Flor da Pele

I

o beijo que não te dei
é parte que ainda
não re/partiu de mim

o que te dou
está na boca
fruta mordida
em teu seio

: carne de amendoim

II

uma mulher caminha nua
na ponta da minha estrela
ou na ponta da tua estrela – nua
caminho eu -

parte do mar e do fogo
na língua da assombração
parte da terra e do vento
na carne do pensamento
lavras do teu vulcão

III

alguma estrela cadente
varreu o pó do meu sangue
beijou o chão dos meus olhos
e o fogo azul deste mar

em grave e cruel desespero
igual corrente gadeia
com dente veloz de aflição

comeu a carne na poça
voou com os seios da moça
e fez-se constelação

IV

para voar com tuas patas
é preciso estar de fato
com o corpo em êxtase
e todo sangue em poesia

pois senão no teu impulso
e vôo pro grande sexo
sangrarás na virgindade
e morrerás de hemorragia

Exercício

com um dedo
abro
a tua boca vagina

com dois
aperto
o bico do teu seio

e
ultra/passo
a porta do teu meio


Confissão

se em ti estou
é para alimentar o que não sou
e o que sou
não é represa

é veia pública sob patas
postas de sangue na mesa
nada mais me é surpresa

cansei de ser correto
deixei de ser decente
eu quero mesmo é o paladar
da tua língua
entre os meus dentes

Artur Gomes
In Suor & Cio


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