quarta-feira, 27 de junho de 2012

metáfora outra metáfora


Marcelle Salles - foto: artur gomes


a menina das unhas azuis
no cais teus olhos de luz
como um peixinho  dourado
na  tatuagem das  costas
sob os tecidos oculta
em tua língua mil falas
quando coloca entre dentes
um chocolate de menta
com teu sabor imaginário
por entre a pele relicário
que só meu dedo roçou
naquela  cena em  suspense
que fellini não pensou

arturgomes


Oficina Cine Vídeo na UPEA





vídeo com imagens captadas por alunos da Oficina Cine Vídeo
 realizada na UPEA durante oII Encontro Agro Ambiental no 
dia 13 de junho de 2012 - na  trilha sonora poema de Artur Gomes 
musicado por Paulo Ciranda na voz de Renato Gama

Metáfora para Isadora

onde teus pés bailarina dançam
cato os vestígios do tempo
onde teus olhos bailarina olham
um gato passeia em teu colo
e na vidraça o giz derrama poesia
escritas com punhos de ontem
em tua cidade de serras


onde teus braços bailarina
sustentam tuas mãos que colhem uvas
coloco águas de chuva no meu amor  em desalinho
e beijo  o teu fruto sagrado
e os teus segredos guardados
entre os teus lábios de vinho

artur gomes
www.artur-gomes.blogspot.com




 Navegar é Preciso Viver Não é Preciso - um filme de Artur Gomes com imagens captadas nos canais e braços de rio que cortam os mangues de Gargaú, tendo como companheiros de viagem pescadores e catadores de caranguejo - finalizado no Laboratório de Cinema do IFF Campus Campos  Centro


Por Enquanto
Mudaram as estações, nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Tá tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era pra sempre
Sem saber, que o pra sempre, sempre acaba
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém só penso em você
E aí, então, estamos bem
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa
Mesmo com tantos motivos
Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar agora tanto faz
Estamos indo de volta pra casa
 Renato Russo


terça-feira, 26 de junho de 2012

Fulinaimagem



Sanya Rohen - fotos: artur gomes


1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca
a afiar os verso que ainda não fiz
e as brigas de amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto
que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim admirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
bagana acesa sobra o cigarro é sarro
dentro do carro
ainda ouço jimmi hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama
a seda pura foto síntese do papel
tem flor de lótus nos bordéis copacabana
procuro um mix da guitarra de santana
com os espinhos da rosa de Noel
 
artur gomes

TV Fulinaíma

Jura secreta 115


Sanya Rohen - foto: artur gomes


este teu olho que me olha
azul safira
ou mesmo verde esmeralda fosse
pedra – pétala rara
carne da matéria doce
ou mesmo apenas fosse
esse teu olho que me molha
quando me entregas do mar
toda alga que me trouxe

arturgomes

metáfora


Sanya Rohen - foto: - artur gomes

a passageira da poltrona ao lado
observa a paisagem atentamente na janela
meus olhos focam o seu perfil na tela
meu dedo aciona o dispositivo do zoom
para ter a sua imagem mais de perto
o coração entende a sensação do seu olhar flertando a câmera
o sentido está aberto na viagem
onde a surpresa não tem planos
e a arte é puro acaso do que possa acontecer
na engenharia dos músculos que se movem
inconscientes onde poema houver
na miragem oculta numa manhã de sexta
depois de noite inteira de cerveja para perder o sono
sem saber que na poltrona ao lado
na luz desta miragem  iria amanhecer


arturgomes
www.artur-gomes.blogspot.com

terça-feira, 19 de junho de 2012

homem/mangue/lama/caranguejo

mangue Gargaú - fotos: artur gomes

No documentário sobre os manguezais de Recife com texto de Josué de Castro, ele afirma que ali, “homem e caranguejo são a mesma carne, pois se alimentam da mesma lama”   e vai além “no mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama. Não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capiberibe, nos bairros miseráveis do Recife - Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo”.

arturgomes

segunda-feira, 18 de junho de 2012

plástico de lixo nos mangues que mar eu bebo afinal?




este final de semana saí com minha máquina de duas rodas pedalando pelo litoral de são francisco entre santa clara e guaxindiba, o registro foto gráfico está neste álbumhttps://www.facebook.com/media/set/?set=a.2185516933529.60980.1715210101&type=1 no próximo irei avançar fota grafar o trecho entre manguinhos e lagoa doce. 

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?


arturgomes
www.goytacity.blogspot.com

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Antes Arte do Que Nunca


foto: Larissa Rangel

Neste Vídeo, com imagens captadas por Larissa Rangel, aluna do IFF Campus Guarus e finalizado no Laboratório de Cinema do IFF Campus Campos Centro,  além de você poder ouvir esta belíssima canção de Edvaldo Santana, você pode ver também a alegria de uma criançada linda presente ao II Encontro Agro Ambiental na UPEA. Além de ainda ficar sabendo para que servem as minhocas.


arturgomes
www.tvfulinaima.blogspot.com

Liberado para o mundo, viralata do ocidente
Sem coleira, sem dinheiro, com um coração bem quente
Meu cabelo no outono toma sol pelo poente
Pra entrar sou clandestino, pra sair fico doente
Vou atrás atalho afora, do que tem a luz intensa
Que motiva meu desejo, que me faz pedir sua benção
Me dedico se possível sem pensar na recompensa
Sou daqueles que acreditam na paixão e na ciência
Vou beber mel pela fonte por onde meu faro alcança
Pra entender o que se passa entre a paz e a vingança
Minha arte não tem preço minha busca não se cansa
Eu sou bicho do mato com olhar de criança, aaaah...
Nessa vida eu agradeço os desenganos, aaaaah...
Meu violão tem a poeira dos ciganos, aaaah...
Nessa vida eu agradeço os desenganos, aaaaah...
A minha voz traz a franqueza dos hermanos
Atravesso a fronteira, meu amor, uma luz tá me chamando
Rosa, Dália, Alecrim, espalhados no jardim
Afro-tupi-guarani, esta história não tem fim...

Edvaldo Santana
www.edvaldosantana.com.br

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Um Dia na UPEA


Um Dia na UPEA - Semana do Meio Ambiente - II Encontro Agroambiental
filme produzido pelo Laboratório de Cinema do IFF - Campus Campos Centro
 com imagens captadas por Larissa Rangel aluna do IFF Campus Guarus - trilha sonora: Madan

DO RUBAYAT DE OMAR KHAYYAM (I)


IX

Em Naishapur ou Babilônia, alguma
Taça, ou amarga ou doce, sempre espuma,
Verte o Vinho da Vida, gota a gota,
Vão-se as Folhas da Vida, uma a uma.


XXV

Ah, vem, vivamos mais que a Vida, vem,
Antes que em pó nos deponham também,
Pó sobre pó, e sob o pó, pousados,
Sem Cor, sem Sol, sem Som, sem Sonho — sem.


LXV

Inferno ou Céu, do beco sem saída
Uma só coisa é certa: voa a Vida,
E, sem a Vida, tudo o mais é Nada.
A Flor que for logo se vai, flor ida.


(Traduções: Augusto de Campos) - musicado por Madan

segunda-feira, 11 de junho de 2012

semana do meio ambiente II Encontro Agroambiental


Local: UPEA - Unidade de Pesquisa e Extensão Agroambiental/IFF.
Data: 13 de junho de 2012 – quarta-feira.
Horário: 08:00 às 12:00h e das 14:00 às 18:00h.
Público alvo: Estudantes da Escola Municipal Elysio de Magalhães e da Escola Estadual Raimundo de Magalhães

Objetivo: Realizar o II Encontro Agroambiental atendendo estudantes da rede pública de Barcelos em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente.
Apoio: Prefeitura Municipal de São João da Barra

Programação:
Oficinas previstas Descrição Vagas Responsável

1-Criação de pequenos animais Orientação básica sobre a criação de pequenos animais (carneiros, galinhas e outros) 20 Antônio Gesualdi

2-Energia Renováveis Fornecer conhecimentos básicos sobre Geração de Energia Elétrica por painéis Fotovoltaicos. 25 Rodrigo Martins

3-Estação de tratamento de água e laboratório Princípios básicos sobre o funcionamento de estação de tratamento de água 20 Willians Sales Cordeiro
Monique Curcio

4-Informática Orientação sobre a criação de facebook 20 Solange da Silva Figueiredo

5-Mecatrônica (robôs e outros equipamentos) Apresentação de protótipos e invenções em robótica 30 Cedric Solotto

6-Piscicultura (criação de peixes em cativeiro) Orientação sobre o cultivo de peixes em cativeiro para consumo e comercialização 20 Rogério Burla / Amaro Gonçalves

7-Plantas medicinais (uso e manejo correto) Orientação cultivo, uso e manejo de plantas medicinais 20 Rose Mara Soares Corrêa

8-Produção de mudas nativas e minhocário Orientação sobre coleta de sementes e produção de mudas de plantas em viveiros 20 Milton Erthal

9 –Química do Lixo (reciclagem) Discussão sobre a composição do lixo residencial e possibilidades de reciclagem 20 Pedro Castelo Branco / Rodrigo Garret

10 – Oficina de Fotografia (uso de máquinas digitais) Orientação sobre o uso de máquinas digitais em fotos em diferentes ambientes 10 Diomarcelo Pessanha

11 – Oficina de Vídeo (uso de celulares com vídeo) Orientação sobre a criação de vídeo com uso de celulares. 10 Artur Gomes 
215 

Metodologia:
As oficinas serão realizadas integralmente nas dependências da Unidade de Pesquisa e Extensão Agroambiental no período da manhã e tarde.
Serão oferecidas 11 oficinas, em diferentes áreas. Cada Estudante da Escola Municipal Elysio de Magalhães e da Escola Estadual Raimundo de Magalhães poderá se inscrever em até duas oficinas.

As oficinas têm por objetivo despertar os estudantes para novos conhecimentos, que possam ajudá-los na escolha de sua formação técnica e profissional. As inscrições para as oficinas serão realizadas nas próprias escolas atendidas pelo evento por bolsistas de iniciação científica Jr. e Jovens Talentos da UPEA, em data a ser definida junto a direção das escolas. Serão disponibilizadas de 10 a 30 vagas por oficina, perfazendo um total de 215 estudantes por turno e 430 no evento.

No período da manhã, os estudantes deverão chegar na UPEA por volta das 8:00h. Eles serão reunidos na Tenda da organização, instalada no gramado da Unidade, para serem orientados para os locais de realização das oficinas. As primeiras oficinas se iniciarão às 8:30h e se encerrarão às 10:00h. Será oferecido um lanche para os estudantes entre 10:00 e 10:30h na tenda da organização. A segunda rodada de oficinas ocorrerá no período de 10:30 às 12:00h. No período da tarde as oficinas ocorrerão nos horários das 14:00 às 15:30h e das 16:00 às 17:30h. O intervalo para o lanche será das 15:30 às 16:00h.

Em reunião com a Sra. Carla Machado ficou definido que a Prefeitura Municipal de São João da Barra se responsabilizará pelo transporte dos estudantes (cerca de 215 em cada turno) para o evento, além da cessão da tenda de 15 x 15 metros, 50 jogos de mesas com cadeiras e sistema de som. Os lanches e toda estrutura necessária para realização das atividades serão de responsabilidade da UPEA/IFF. Ao término das atividades de cada turno os estudantes receberão certificado de participação nas oficinas da UPEA/IFF.

Organização:
Vicente de Paulo Santos de Oliveira
Milton Erthal Junior
Amaro Gonçalves Batista
Evelyn Rueb Lacerda de Araújo
Camila Ferreira de Souza
Wilza Carla do Couto Martins

catadores e catadoras de caranguejo de gargaú




guima 
meu mestre guima
em mil perdões
eu vos peço
por esta obra encarnada
nacarne cabra da peste
da hygia ferreira bem casta
aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta


ave palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais sagaranas
a morte em vidas severinas
tal qual antropofagia
teu grande serTão vou cumer


nem joão cabral severino
nem virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer


a ferramenta que afino
roubei do meste drummundo
que o diabo giramundo
é o narciso do meu Ser


artur gomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

terça-feira, 5 de junho de 2012

Pontal – Teatro.Poesia


 O espetáculo de Teatro.Poesia, Pontal, com poemas de Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes, Antônio Roberto Góis Cavalcanti e Adriana Medeiros com Artur Gomes, Yve Carvalho e Toninho Ferreira, vai estar em cartaz no Teatro de Bolso, dias 21, 22, 23 e 24 de junho às 21h.


Pontal estreou em janeiro de 2010 n0 Bar do Neivaldo em Atafona e através da poesia fala das diversas mudanças sofridas no ponto onde o rio Paraíba do Sul encontra-se com o oceano Atlântico e a relação dos poetas/autores com o local.


Um rio

Era uma vez…
Um rio

Que de tão vazio,
já não era rio
e nem riachão,
tão pouco riacho.

Não era regato,
nem era arroio,
muito menos corgo.

Era uma vez…
um rio
que, de tanta cheia,
já não era rio
e nem ribeirão.

Era mais que Negro,
era mais que Pomba,
era mais que Pedra,
era mais que Pardo,
era mais que Preto,
bem maior ainda
que um rio grande.

Era uma vez…
um rio

que de tão antigo
era temporário,
era obsequente,
era um rio tapado
e antecedente.

Que não tinha foz,
que não tinha leito,
que não tinha margem
e nem afluente,
tão pouco nascente.

Mas que era um rio.

Não era das Velhas,
não era das Almas,
não era das Mortes.

Era um Paraíba,
era um Paraná,
era um rio parado.

Rio de enchentes,
rio de vazantes,
rio de repentes:
Um rio calado:

Sem Pirá-bandeira,
Sem Piracajara,
Sem Piracanjuba.

Em suas águas
não havia Pira
não havia íba,
não havia jica,
não havia juba.

Nem Pirá-andira,
nem Piraiapeva,
nem Pirarucu.

Era um rio assim:
Sem pirá nenhum.

Mas que era um rio.

Era uma vez….
Um rio.

Que, de tão inerte,
Já não era rio.

Não desaguou no mar,
não desaguou num lago,
nem em outro rio.

É um rio antigo,
que de tão contido
não é natureza.

Um dia foi rio,
há muito é represa.

Antônio Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)

Pontal 

(a Ana Augusta Rodrigues)

Aqui
onde rio e mar
se beijam
aqui no fim do mundo
onde terra e céu
se abraçam
num ato sexual.

Aqui
no fim do dia
um barco preso na corda
um peixe preso no anzol
a terra varrida ao vento
casas varridas ao temporal…

Aqui
no mesmo teto
pássaros sobre os calcanhares
homens sobre os girassóis
onde rio e mar se beijam
re-nascem nossos filhos
quando terra e céu se abraçam
sem ter nem mães nem pais

Onde o seu refúgio
é nu / meu peito aflito
e a minha solidão
nu / teu corpo é
paz.

arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com



 Pontal Foto.Grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui.

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes


“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra,
e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida
e o homem se tornou um ser vivente”

gênesis (2.7)

epifania
(p/ euclides, yeats e soffiati)

guiava a picape pela montanha
entre curvas da estrada e do rio
que ambos seguiam à planície
na qual não nasci, mas habito
desde quando aprendi a pisar
e a montanha nas suas certezas
de subir e descer no caminho
falou-me na língua das pedras
de onde brotam as águas:
— decifra-me ou te desfaço!

feito do barro massapê
sobre o qual caminhei a vida
tendo o plano por destino e partida
consultei as cores do crepúsculo
que, melancólicas, se riram de mim:
— de onde vens? — indagaram-me as cores
— de cambuci, refúgio dos puris!
— para onde vais?
— aos campos dos goitacás!
— o que corre ao seu lado?
— o rio!
— e para onde corre o rio?
— ao mar!
e riram-se de novo as cores:
— pois então!

a montanha, descontente pela ajuda
escondeu o sol e exilou as cores
antes que se voltasse a mim, respondi:
— não te decifro, sou você
sou teu barro, que o rio lava,
carreia e forma a planície
sou o que deságua no mar e o escurece
meu templo não se ergue na pedra
mas no que nela colide e desprende
não me desfaço, transformo!

atafona, 04/06/2000

closer
(p/ branca)

ao volante da picape,
um naufrágio de torpedo
atravessa damien rice,
à imagem do seu canto.

o hermético, dos ventos,
dita planos diferentes,
à longitude dos destinos
entre a foz e o afluente.

um coração em déjà vu,
quando partido, se areja
pelo sopro da janela
no motorista que acelera
e, de leveza, até sorri,

ao notar entre seus dedos
— acaso do tato no ato final —
aquele fio longo de cabelo,
só e sangue como o sol.

passa a musa e o chapéu:
“i can’t take my mind…
my mind… my mind…
til i find somebody new”.

atafona, 05/07/08

angelical

as ondas, o grilo, o galo
dão vozes ao frio
esgueirado nas frestas

do mantra oculto no crânio
o eco do nome dela, banido
escapa da boca no grito

a furo, da alma
esse pus aquece o corpo
mais que o edredom

atafona, 17/07/06

elenismo

onde começa a planície
à margem direita da foz
reflete à míngua um egeu
de sede da sua língua
maresia dos corpos jogados
oxida entre dedos de dédalo
o cheiro dela que esvai
e volta à memória em marés

pelo sol imolado na praia
do sacrifício por afrodite
nos meus criem o credo
daqueles olhos oblíquos

atafona, 07/06/08

aurora

dia desses, madrugada alta
insone, acordei a mulher
para matar saudades do adolescente
ébrio, na beira da praia, à espera do sol,
que buscava ouvir o mar chiando ao parir brasa

acompanhado, reconstituí a cena
tendo como elemento novo, além da mulher,
a barricada baixa de nuvens no final do horizonte
deflorada lentamente pelos dedos róseos do poeta

ela olhou e disse que as nuvens pareciam algodão doce
pensei e a mim lembraram ilha grande
que quando avistada da ilha seguinte
vê-se não ilha, mas continente;
imaginei após a amurada interna do forte
dos que querem manter como está
e já saem à guerra vencidos;
recordaram-me também a serra do imbé
fazendo fundos com a planície dos extintos
lhe dando vértebras;
ou ainda a conseqüência do recife
no qual convergissem todas as ondas do atlântico
açoitando a pedra e espalhando espuma
como o cheiro do quarto no amor

o sol nasceu entre nuvens e metáforas
contemplei-o até a cegueira
beijei a mulher e me despedi de homero
que fez do ouro seu anel de noivado
e saiu comendo algodão doce

atafona, 15/04/2000
pacto

com a cadela nova na coleira
contei quatro saltos do peixe
à beira mar, sem ninguém

não vi o que viveu antes o peixe
ou o que viveu depois do quarto salto
na verdade, não o conhecia

com a cadela, se vivermos
sem cair nas redes nossas
talvez partilhe visões outras

tivemos os três aquele momento
com ninguém mais à beira da praia
e a cadela me seguiu sem a coleira
e quase entrou no mar do peixe

atafona, 14/05/2000

moinho

vento balança copa
nogueira
vento que venta mais
na beira
vento lá da maré
é cheia
vento que canta e chama
sereia
vento em lua nova
inteira
vento de céu aberto
esteia
vento que traz barulho
traineira
vento de maresia
permeia
vento que volta o cuspe
bobeira
vento transporta duna
carreia
vento que sopra à face
tonteia
vento na capoeira
volteia
vento que corre o rio
na veia
vento que traz o mar


atafona, 28/12/99
Aluisio Abreu Barbosa

Rio à míngua

Outrora, em tempos outros,
tudo que hoje é habite-se
pertenceu ao que se diz
ser a imensidão do mar.

Até que um dia, o Paraíba,
buscando destino cumprir,
rasgou as entranhas da serra
para a planície formar.

E fez-se istmo primeiro,
entre golfos e brejais.
doces e feias lagoas,
d’uma beleza sem par.

Assim se fez a baixada.
Assim se fez São João,
do Açu a Atafona.
Do delta em pé de ganso
Fez-se um pontal de paixão.
De Gargaú, Guaxindiba,
às margens do Itabapoana,
dos goitacá, a nação.

Mas o rio que nos deu vida
o homem um dia sangrou
transformando-o em ferida,
cerceando-lhe a vazão.
Minando-lhe todas as forças
para os embates com o mar.

Transformaram em Guandu
o Paraíba do Sul
desviando-lhe as águas.
Semeando em seu leito,
do Egito, as sete pragas.
E no Pontal um lamento
Que traduz nosso tormento
em ver o rio minguar.
Antônio Roberto(Kapi)
travessuras
(em parceria com dora)

cana e açúcar no ar
chaminé fumando elegante
no horizonte da planície
que um dia foi
e um dia volta a ser
do mundo do silêncio de costeau

campos, 28/06/97
tempo

ver Deus olhando nuvens
do pôr do sol da praia
sopro do vento nordeste
virando terral
virando o mar
virando outro cheiro
virando o tempo
mas tempo é tempo
é nada mais
é só tempo
tempo da morte
tempo da vida
crediário duma
prestação doutra
território do ponteiro
demarcado por mijo monótono
comum lugar do tic
perseguido por tac
e amanhã tem que acordar cedo
pra trabaiá

atafona, 08/12/95
estiagem

depois da chuva são moscas
mosquitos obstinados à caça de sangue
depois da chuva são poças
cheiro de terra, ciclo de rastros
depois da chuva são sapos
corte a amantes dentro do mato
depois da chuva são cantos
folhas mais leves prenhes de pássaros
depois da chuva são vidas
formas moldadas no meio da lama
depois da chuva são gotas
pendendo em extinção da borda da telha
depois da chuva são cores
reflexos de luz na umidade do ar

depois da chuva?
a gratidão é verde depois da chuva

atafona, 05/12/2000

duas luas
(p/ lívia)

a nuvem escorre
pela lua cheia
como o tabaco
e o amor
entre os dedos

somem, consomem, secam,
vão
semeando cheiros
e lembranças
no álbum de retratos

à senha dos uivos
viro o corpo na cama
do quarto escuro
mas a lua me contorna
dobrada nos olhos dela

campos, 17/04/06
deriva

o navegador diz que liberdade
é diferente de estar à deriva
como sereia nunca me contou
se navegar é necessário
ou só demanda precisão
sigo a corrente
sem ver nisso prioridade
sentindo, roendo unha
pondo de lado as latitudes
ainda que as perceba

atafona, 14/11/95


muda

a memória sai da toca
sobe pela palafita
ainda escorrendo lama
e me fita
com olhos de caranguejo
entre as tábuas do piso
do bar do espanhol
quando o pontal era ponta
tinha fé de igreja
e luz de farol

na boca do mangue
passei minha rede de arrasto
mas só peguei filhotes de bagre
que me ferraram o pé
ao chutá-los de volta à água
até que pedro me ensinou
a pegar pitu de mão
entre raízes do mato
na beira do alagadiço

hoje passo no mangue
e não piso na lama
mas na asfixia lenta
dos aterros do homem
e do avanço do mar
perto das ilhas da convivência e pessanha
siamesas da mesma terra
onde ficou minha casca da muda
de caranguejo a espera-maré

atafona, 06/2000
“vasto é o mar, espelho do céu, querida
belo é o jovem mergulhador na ida” 
(tom jobim)

espelho
(p/ paulo, luís e jacques mayol)

acredito no céu
que quando morrer vou pra lá
num céu de einstein sem newton
onde os mares flutuam
sobre cada estrela por grão
e os anjos que descem
são golfinhos saltando

atafona, 13/05/2000

conversão a mais de uma atmosfera

quando estou lá embaixo
esbarro comigo mesmo
sem dar de ombro
é em mim o tiro que miro
do arpão que zune nas águas
e rasga escamas
e carnes de pouco sangue
não vejo Deus vendo acima
só abaixo
perdido em arquiteturas
e faço parte d’Ele
refém do fascínio
de quem habita a zona morta
do meio do esquadro

atafona, 20/03/96
Aluisio Abreu Barbosa

Manchete de jornal
(Mar atinge Caixa D’Água em Atafona)

Não bastava todo o concreto
debaixo d’água
agora o mar também
tem sede de água
Não bastava a nossa nostalgia
agora o mar também nos arrebenta
os matando de agonia
Não bastava não caber
em meus olhos
o rio beijando o mar
de pernas abertas
esculpindo de vazio
o pouco que nos resta
Não bastava ser
Quase do tamanho
Do Principado de Mônaco
agora o “Moinho de Ventos”
quer se fazer rei… e eu… um bobo da corte
não bastava os artistas plásticos
arquitetos, sambistas, cachaceiros
compositores, poetas, garçons, putas e cantores
camisa de Vênus… luau
sexo sem culpa… uau…!!!
violões de forca
agora nos colocam na parede
com camisa de força
Atafona é de enlouquecer
um dia, reduto da oposição.
No outro, eterna comunhão
Ainda tem Carlinhos Pisca-Pisca
Com seus olhos que não param
Malacacheta se foi…
Ruínas ruiu…
Mas Elvis continua
na briga com a sereia
entre pedras, vergalhões e árvores mortas
Terra de eternas Elisabetes
Aflitos Erenitos
Doidas Doras
Inseguros Aluysios
Inconstantes Caetanos
Apaixonadas Adrianas
Transcendentais “Lulus”
Musicais Nanis
Perdidas Cláudias
E dá-lhes São Jorge
João, Renatos
maresia, caju e cana
Esta saudade estrelada
sob o céu de nossas camas
não bastavam os caranguejos em procissão
marolas, pipas e pontal
A magia nos permite
fazer um ritual…
Apertar um bom
Ouvir histórias
Conviver na ilha
No beiral do rio
Juntar minhas viagens
No que foi e no que poderia ter sido
Atafona é cenário perfeito
para todas as misturas
para todas as tendências
Mar para todo braço
Rio para todas as possibilidades
E o Pontal
Quase que encolhidinho
Dentro do meu campo visual
Converte-se em proscênio
pro ato final
Não bastava ser assim
Agora resta no ar
Uma aura de pecado
Onde nem os peixes ficarão impunes
Ainda é costume
Se fazer de boto
Pra não ficar isolado
Ainda há meninos sãos
Pra todos os lados
Ainda freamos o mar
Como o nosso tesão molhado
Ainda sentimos frio lá na curva
Onde, hoje, habita Neivaldo
E ainda viveremos mais verões
Bastando-nos, apenas, entender
Que a natureza sempre teve, tem
E terá suas razões…
— Pode jogar a rede !!!

Adriana Medeiros