quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

oração do corpo



© OSCAR BERTHOLDO
1936 - 1991

Não há lugar para o texto, só o corpo.
Mas o corpo cadente é espada no meio
das mãos. Agora é tarde a palavra,
desapareceu a posse das coisas amadas.
O vento que vergara os teus cabelos
construiu a nostalgia de regressar à casa.
Nós somos só pó. Nada mais é texto,
o corpo existe desamparado
campo de tributos. Sem nome cato
o esquecimento. Corpo é texto
cada um joga o corpo para o lado
que quer. De repente o corpo é
conduzido ao mundo mal o vento
rompe o sol e as asas dos pássaros
encaram o dia com o mesmo espanto
possível da infância, o corpo é
sempre só. Trago dentro do texto
o cansaço. Sinto a noite corrompida
dizer teu nome, devagar...
Nenhuma estrela lembra o sexo grunhindo
feito morte escrava. Não há lugar
para o corpo. Se alguém vier, há de
tarjar o texto como sempre.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sarau no Sonnetto

may pasquetti - fotos:  





Sarau no Sonnetto Retorna em Março

Sonnetto Café - Av. Pelinca - Campos dos Goytacazes


Jura Secreta 18


te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo
peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos
as rendas íntimas que vestias
sobre os teus pelos ficção

todos os laços dos tecidos
e aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
e o sabor da tua língua
e o baton da tua boca
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes

e para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado
se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa


Artur Gomes

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Poema sujo


Poema sujo

(trecho inicial)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís
do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos
e pais dentro de um enigma?
mas que importa um nome
debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre
cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de
garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto
e as facas se perdem e os garfos
se perdem pela vida caem
pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã
quanta coisa se perde
nesta vida
Como se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas tão reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempre
Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
ou dentro de um ônibus
ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
do rigor cronológico
sonhando
Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do
jantar,
voais comigo
sobre continentes e mares

E também rastejais comigo
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror
vos esgueirais comigo, mesas velhas,
armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais
que o dia venha

E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora
te chamo água
te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema
nas aparições do sonho

- E esta mulher a tossir dentro de casa!
Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,
O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.
E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de
dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)
E todos buscavam

num sorriso num gesto
nas conversas da esquina
no coito em pé na calçada escura do Quartel
no adultério
no roubo
a decifração do enigma

- Que faço entre coisas?
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas
(como pode o perfume
nascer assim?)
Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam
pés de tomate
Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins
mais verdes que a esperança
(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade
sob as sombras da guerra:
a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg
catalinas torpedeamentos a quinta-coulna os fascistas os nazistas os
comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o
sabão de andiroba o mercado negro o racionamento oblackout as
montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João
Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de
tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.
Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava
rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco
que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava
tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,
pelo meu carneiro manso
por minha cidade azul
pelo Brasil salve salve,
Stalingrado resiste.
A cada nova manhã
nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.
Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta no domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado
sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz, coisa opaca.
Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?
Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de
gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo?
Meu corpo feito de carne e de osso.
Esse osso que não vejo, maxilares, costelas
flexível armação que me sustenta no espaço
que não me deixa desabar como um saco
vazio
que guarda as vísceras todas
funcionando
como retortas e tubos
fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
mais sentidos
para explodir uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como a um continente
ou um jardim
circulando por meus braços
por meus dedos
enquanto discuto caminho
lembro relembro
meu sangue feito de gases que aspiro
dos céus da cidade estrangeira
com a ajuda dos plátanos
e que pode - por um descuido - esvair-se por meu
pulso
aberto

Meu corpo
que deitado na cama vejo
como um objeto no espaço
que mede 1,70m
e que sou eu: essa coisa deitada
barriga pernas e pés
com cinco dedos cada um (por que
não seis?)
joelhos e tornozelos
para mover-se
sentar-se
levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo
meu corpo feito de água
e cinza
que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado
a toda essa massa de hidrogênio e hélio
que se desintegra e reintegra
sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
dois olhos
e um certo jeito de sorrir
de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
que meu filho identifica
como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca
um grave acontecimento na família:
sem ele não há José Ribamar Ferreira
não há Ferreira Gullar
e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta
estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho
de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato
brilhantina anel barato
língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato
nos pentelhos
com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi
Mas sobretudo meu
corpo
nordestino
Mais que isso
maranhense
mais que isso
sanluisense
mais que isso
ferreirense
newtoniense
alzirense
meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres
ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo
sob as balas do 24º BC
na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio
num tic tac que não se ouve
(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)
tic tac tic tac
enquanto vou entre automóveis e ônibus
entre vitrinas de roupas
nas livrarias
nos bares
tic tac tic tac
pulsando há 45 anos
esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária
meu coração de menino
 

Ferreira Gullar

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ferreira Gullar



 Ferreira Gullar: Por você por mim

*

A noite, a noite, que se passa? diz
que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta
pantera lilás, de carne
    lilás, a noite, esta usina
no ventre da floresta, no vale,
sob os lençóis de lama e acetileno, a aurora,
o relógio da aurora, batendo, batendo,
quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão
a boca destroçada já não diz a esperança,
    batendo
Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien.
     Mas amanhece.


Que se passa em Huê? em Da Nang? No Delta
     do Mekong? Te pergunto,
nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,
     te pergunto,
que se passa no Vietnam?

As águas explodem como granadas, os arrozais
se queimam em fósforo e sangue
    entre fuzis
                      as crianças
fogem dos jardins onde açucenas pulsam
como bombas-relógio, os jasmineiros
soltam gases, a máquina
       da primavera
       danificada
       não consegue sorrir.


 Há mortos demais no regaço de Mac Hoa.
        Há mortos demais
nos campos de arroz, sob os pinheiros,
às margens dos caminhos que conduzem a Camau.


 O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos
       da morte, o motor
       da vida gira ao contrário, não
       para sustentar a cor da íris,
       a tessitura da carne, gira
ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho
       do corpo, gira
       ao contrário das constelações, a vida
       ao contrário, dentro
       de blusas, de calças, dentro
de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira
ao contrário a vida feita de morte.
                                                       Surdo
           sistema de álcool, gira
           gira, apaga rostos, mãos,
           esta mão jovem
     que saiba ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos

demais, há mortes
            demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos
     do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada,
     aquela tarde clara tudo
             tudo se dissolve nas águas marrons
     e entre nenúfares e limos
     a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul


 É dia feito em Botafogo.
Homens de pasta, paletó, camisa limpa,
dirigem-se para o trabalho.
Mulheres voltam da feira, as bolsas cheias de legumes.
Crianças passam para o colégio.
As nuvens nuvem
e as águas batem naturalmente em toda a orla marítima.
Nenhuma ameaça pesa sobre a cidade.
                                                             As pessoas
marcaram encontros, irão ao cinema, à buate, se amarão
                                                             nas praias
na cama
nos carros. As pessoas
acertam negócios, marcam viagens, férias.
          Nenhuma ameaça
pesa sobre a cidade.
Os barulhos apitos sem alarma. O avião no céu
          vai para São Paulo.
O avião no céu não é um Thunderchief da USAF
que chega trazendo a morte
         como em Hanói.
Não é um Thunderchief da USAF que chega
seguido de outros
         e outros
         da USAF
carregados de bombas e foguetes
         como em Hanói
que chega lançando bombas e foguetes
         como em Hanói
         como em Haiphong
incendiando o porto
destruindo as centrais elétricas
as estradas de ferro
      como em Hanói
      como em Hoa Bac
queimando crianças com napalm
      como em Hanói
      como em Chien Tien
      como em Don Hoi
      como em Tai Minh
      como em Vihn Than
      como em Hanói
Como pode uma cidade, como pode
      uma cidade
                        resistir


 Os americanos estão agora investindo muito no Vietnam
       O Vietnam agora nada em ouro
       e fogo
       Bases aéreas
       Arsenais
       Depósitos de combustíveis
       Laboratórios na rocha
       Radar
       Foguetes
A ciência eletrônica invade a selva
       gases novos, armas novas
       O lazy-dog
lança em todas as direções mil flechas de aço
       o bull-pup

procura o alvo com seus 200 quilos de explosivos
       o olho-de-serpente
pousa sobre uma casa e espera a hora certa de matar
O Vietnam agora está cheio de arame farpado
       de homens louros
       farpados
       armados
       vigiados
       cercados
       assustados
está cheio de jovens homens louros
e cadáveres jovens
       de homens louros
       enganados


 Próximo à base de Da Nang
        que tudo escuta e tudo vê,
        próximo à base de Da Nang, esgueira-se
        entre árvores um homem,
        próximo à base cheia de soldados,
        metralhadoras, bombas,
        aviões, cheia
        de ouvidos e de olhos
eletrônicos, um homem, chamado Tram,
entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,
cauteloso se move
entre as folhas da noite, Tram Van Dam,
cauteloso se move
entre as flores da morte
Tram Van Dam
quinze anos se move
entre as águas da noite
dentro da lama
onde bate a aurora
Tram Van Dam
onde bate a aurora
Tram Van Dam
com a sua granada
entre cercas de arame
entre as minas no chão
Tram Van Dam
com seu coração
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
sob o fogo inimigo
com o grampo no dente
com o braço no ar
por você por mim
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
no Vietnam



Ferreira Gullar – Toda Poesia (1950/1980)
Licença editorial para Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização S.A

Ferreira Gullar



 Ferreira Gullar: Por você por mim

*

A noite, a noite, que se passa? diz
que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta
pantera lilás, de carne
    lilás, a noite, esta usina
no ventre da floresta, no vale,
sob os lençóis de lama e acetileno, a aurora,
o relógio da aurora, batendo, batendo,
quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão
a boca destroçada já não diz a esperança,
    batendo
Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien.
     Mas amanhece.


Que se passa em Huê? em Da Nang? No Delta
     do Mekong? Te pergunto,
nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,
     te pergunto,
que se passa no Vietnam?

As águas explodem como granadas, os arrozais
se queimam em fósforo e sangue
    entre fuzis
                      as crianças
fogem dos jardins onde açucenas pulsam
como bombas-relógio, os jasmineiros
soltam gases, a máquina
       da primavera
       danificada
       não consegue sorrir.


 Há mortos demais no regaço de Mac Hoa.
        Há mortos demais
nos campos de arroz, sob os pinheiros,
às margens dos caminhos que conduzem a Camau.


 O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos
       da morte, o motor
       da vida gira ao contrário, não
       para sustentar a cor da íris,
       a tessitura da carne, gira
ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho
       do corpo, gira
       ao contrário das constelações, a vida
       ao contrário, dentro
       de blusas, de calças, dentro
de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira
ao contrário a vida feita de morte.
                                                       Surdo
           sistema de álcool, gira
           gira, apaga rostos, mãos,
           esta mão jovem
     que saiba ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos

demais, há mortes
            demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos
     do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada,
     aquela tarde clara tudo
             tudo se dissolve nas águas marrons
     e entre nenúfares e limos
     a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul


 É dia feito em Botafogo.
Homens de pasta, paletó, camisa limpa,
dirigem-se para o trabalho.
Mulheres voltam da feira, as bolsas cheias de legumes.
Crianças passam para o colégio.
As nuvens nuvem
e as águas batem naturalmente em toda a orla marítima.
Nenhuma ameaça pesa sobre a cidade.
                                                             As pessoas
marcaram encontros, irão ao cinema, à buate, se amarão
                                                             nas praias
na cama
nos carros. As pessoas
acertam negócios, marcam viagens, férias.
          Nenhuma ameaça
pesa sobre a cidade.
Os barulhos apitos sem alarma. O avião no céu
          vai para São Paulo.
O avião no céu não é um Thunderchief da USAF
que chega trazendo a morte
         como em Hanói.
Não é um Thunderchief da USAF que chega
seguido de outros
         e outros
         da USAF
carregados de bombas e foguetes
         como em Hanói
que chega lançando bombas e foguetes
         como em Hanói
         como em Haiphong
incendiando o porto
destruindo as centrais elétricas
as estradas de ferro
      como em Hanói
      como em Hoa Bac
queimando crianças com napalm
      como em Hanói
      como em Chien Tien
      como em Don Hoi
      como em Tai Minh
      como em Vihn Than
      como em Hanói
Como pode uma cidade, como pode
      uma cidade
                        resistir


 Os americanos estão agora investindo muito no Vietnam
       O Vietnam agora nada em ouro
       e fogo
       Bases aéreas
       Arsenais
       Depósitos de combustíveis
       Laboratórios na rocha
       Radar
       Foguetes
A ciência eletrônica invade a selva
       gases novos, armas novas
       O lazy-dog
lança em todas as direções mil flechas de aço
       o bull-pup

procura o alvo com seus 200 quilos de explosivos
       o olho-de-serpente
pousa sobre uma casa e espera a hora certa de matar
O Vietnam agora está cheio de arame farpado
       de homens louros
       farpados
       armados
       vigiados
       cercados
       assustados
está cheio de jovens homens louros
e cadáveres jovens
       de homens louros
       enganados


 Próximo à base de Da Nang
        que tudo escuta e tudo vê,
        próximo à base de Da Nang, esgueira-se
        entre árvores um homem,
        próximo à base cheia de soldados,
        metralhadoras, bombas,
        aviões, cheia
        de ouvidos e de olhos
eletrônicos, um homem, chamado Tram,
entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,
cauteloso se move
entre as folhas da noite, Tram Van Dam,
cauteloso se move
entre as flores da morte
Tram Van Dam
quinze anos se move
entre as águas da noite
dentro da lama
onde bate a aurora
Tram Van Dam
onde bate a aurora
Tram Van Dam
com a sua granada
entre cercas de arame
entre as minas no chão
Tram Van Dam
com seu coração
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
sob o fogo inimigo
com o grampo no dente
com o braço no ar
por você por mim
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
no Vietnam



Ferreira Gullar – Toda Poesia (1950/1980)
Licença editorial para Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização S.A

Ferreira Gullar



 Ferreira Gullar: Por você por mim

*

A noite, a noite, que se passa? diz
que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta
pantera lilás, de carne
    lilás, a noite, esta usina
no ventre da floresta, no vale,
sob os lençóis de lama e acetileno, a aurora,
o relógio da aurora, batendo, batendo,
quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão
a boca destroçada já não diz a esperança,
    batendo
Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien.
     Mas amanhece.


Que se passa em Huê? em Da Nang? No Delta
     do Mekong? Te pergunto,
nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,
     te pergunto,
que se passa no Vietnam?

As águas explodem como granadas, os arrozais
se queimam em fósforo e sangue
    entre fuzis
                      as crianças
fogem dos jardins onde açucenas pulsam
como bombas-relógio, os jasmineiros
soltam gases, a máquina
       da primavera
       danificada
       não consegue sorrir.


 Há mortos demais no regaço de Mac Hoa.
        Há mortos demais
nos campos de arroz, sob os pinheiros,
às margens dos caminhos que conduzem a Camau.


 O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos
       da morte, o motor
       da vida gira ao contrário, não
       para sustentar a cor da íris,
       a tessitura da carne, gira
ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho
       do corpo, gira
       ao contrário das constelações, a vida
       ao contrário, dentro
       de blusas, de calças, dentro
de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira
ao contrário a vida feita de morte.
                                                       Surdo
           sistema de álcool, gira
           gira, apaga rostos, mãos,
           esta mão jovem
     que saiba ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos

demais, há mortes
            demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos
     do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada,
     aquela tarde clara tudo
             tudo se dissolve nas águas marrons
     e entre nenúfares e limos
     a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul


 É dia feito em Botafogo.
Homens de pasta, paletó, camisa limpa,
dirigem-se para o trabalho.
Mulheres voltam da feira, as bolsas cheias de legumes.
Crianças passam para o colégio.
As nuvens nuvem
e as águas batem naturalmente em toda a orla marítima.
Nenhuma ameaça pesa sobre a cidade.
                                                             As pessoas
marcaram encontros, irão ao cinema, à buate, se amarão
                                                             nas praias
na cama
nos carros. As pessoas
acertam negócios, marcam viagens, férias.
          Nenhuma ameaça
pesa sobre a cidade.
Os barulhos apitos sem alarma. O avião no céu
          vai para São Paulo.
O avião no céu não é um Thunderchief da USAF
que chega trazendo a morte
         como em Hanói.
Não é um Thunderchief da USAF que chega
seguido de outros
         e outros
         da USAF
carregados de bombas e foguetes
         como em Hanói
que chega lançando bombas e foguetes
         como em Hanói
         como em Haiphong
incendiando o porto
destruindo as centrais elétricas
as estradas de ferro
      como em Hanói
      como em Hoa Bac
queimando crianças com napalm
      como em Hanói
      como em Chien Tien
      como em Don Hoi
      como em Tai Minh
      como em Vihn Than
      como em Hanói
Como pode uma cidade, como pode
      uma cidade
                        resistir


 Os americanos estão agora investindo muito no Vietnam
       O Vietnam agora nada em ouro
       e fogo
       Bases aéreas
       Arsenais
       Depósitos de combustíveis
       Laboratórios na rocha
       Radar
       Foguetes
A ciência eletrônica invade a selva
       gases novos, armas novas
       O lazy-dog
lança em todas as direções mil flechas de aço
       o bull-pup

procura o alvo com seus 200 quilos de explosivos
       o olho-de-serpente
pousa sobre uma casa e espera a hora certa de matar
O Vietnam agora está cheio de arame farpado
       de homens louros
       farpados
       armados
       vigiados
       cercados
       assustados
está cheio de jovens homens louros
e cadáveres jovens
       de homens louros
       enganados


 Próximo à base de Da Nang
        que tudo escuta e tudo vê,
        próximo à base de Da Nang, esgueira-se
        entre árvores um homem,
        próximo à base cheia de soldados,
        metralhadoras, bombas,
        aviões, cheia
        de ouvidos e de olhos
eletrônicos, um homem, chamado Tram,
entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,
cauteloso se move
entre as folhas da noite, Tram Van Dam,
cauteloso se move
entre as flores da morte
Tram Van Dam
quinze anos se move
entre as águas da noite
dentro da lama
onde bate a aurora
Tram Van Dam
onde bate a aurora
Tram Van Dam
com a sua granada
entre cercas de arame
entre as minas no chão
Tram Van Dam
com seu coração
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
sob o fogo inimigo
com o grampo no dente
com o braço no ar
por você por mim
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
no Vietnam



Ferreira Gullar – Toda Poesia (1950/1980)
Licença editorial para Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização S.A