quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ferreira Gullar



 Ferreira Gullar: Por você por mim

*

A noite, a noite, que se passa? diz
que se passa, esta serpente vasta em convulsão, esta
pantera lilás, de carne
    lilás, a noite, esta usina
no ventre da floresta, no vale,
sob os lençóis de lama e acetileno, a aurora,
o relógio da aurora, batendo, batendo,
quebrado entre cabelos, entre músculos mortos, na podridão
a boca destroçada já não diz a esperança,
    batendo
Ah, como é difícil amanhecer em Thua Thien.
     Mas amanhece.


Que se passa em Huê? em Da Nang? No Delta
     do Mekong? Te pergunto,
nesta manhã de abril no Rio de Janeiro,
     te pergunto,
que se passa no Vietnam?

As águas explodem como granadas, os arrozais
se queimam em fósforo e sangue
    entre fuzis
                      as crianças
fogem dos jardins onde açucenas pulsam
como bombas-relógio, os jasmineiros
soltam gases, a máquina
       da primavera
       danificada
       não consegue sorrir.


 Há mortos demais no regaço de Mac Hoa.
        Há mortos demais
nos campos de arroz, sob os pinheiros,
às margens dos caminhos que conduzem a Camau.


 O Vietnam agora é uma vasta oficina da morte, nos campos
       da morte, o motor
       da vida gira ao contrário, não
       para sustentar a cor da íris,
       a tessitura da carne, gira
ao contrário, a desfazer a vida, o maravilhoso aparelho
       do corpo, gira
       ao contrário das constelações, a vida
       ao contrário, dentro
       de blusas, de calças, dentro
de rudes sapatos feitos de pano e palha, gira
ao contrário a vida feita de morte.
                                                       Surdo
           sistema de álcool, gira
           gira, apaga rostos, mãos,
           esta mão jovem
     que saiba ajudar o arroz, tecer a palha. Há mortos

demais, há mortes
            demais, coisas da infância, a hortelã, os sustos
     do amor, aquela tarde aquela tarde clara, amada,
     aquela tarde clara tudo
             tudo se dissolve nas águas marrons
     e entre nenúfares e limos
     a correnteza arrasta para o mar o mar o mar azul


 É dia feito em Botafogo.
Homens de pasta, paletó, camisa limpa,
dirigem-se para o trabalho.
Mulheres voltam da feira, as bolsas cheias de legumes.
Crianças passam para o colégio.
As nuvens nuvem
e as águas batem naturalmente em toda a orla marítima.
Nenhuma ameaça pesa sobre a cidade.
                                                             As pessoas
marcaram encontros, irão ao cinema, à buate, se amarão
                                                             nas praias
na cama
nos carros. As pessoas
acertam negócios, marcam viagens, férias.
          Nenhuma ameaça
pesa sobre a cidade.
Os barulhos apitos sem alarma. O avião no céu
          vai para São Paulo.
O avião no céu não é um Thunderchief da USAF
que chega trazendo a morte
         como em Hanói.
Não é um Thunderchief da USAF que chega
seguido de outros
         e outros
         da USAF
carregados de bombas e foguetes
         como em Hanói
que chega lançando bombas e foguetes
         como em Hanói
         como em Haiphong
incendiando o porto
destruindo as centrais elétricas
as estradas de ferro
      como em Hanói
      como em Hoa Bac
queimando crianças com napalm
      como em Hanói
      como em Chien Tien
      como em Don Hoi
      como em Tai Minh
      como em Vihn Than
      como em Hanói
Como pode uma cidade, como pode
      uma cidade
                        resistir


 Os americanos estão agora investindo muito no Vietnam
       O Vietnam agora nada em ouro
       e fogo
       Bases aéreas
       Arsenais
       Depósitos de combustíveis
       Laboratórios na rocha
       Radar
       Foguetes
A ciência eletrônica invade a selva
       gases novos, armas novas
       O lazy-dog
lança em todas as direções mil flechas de aço
       o bull-pup

procura o alvo com seus 200 quilos de explosivos
       o olho-de-serpente
pousa sobre uma casa e espera a hora certa de matar
O Vietnam agora está cheio de arame farpado
       de homens louros
       farpados
       armados
       vigiados
       cercados
       assustados
está cheio de jovens homens louros
e cadáveres jovens
       de homens louros
       enganados


 Próximo à base de Da Nang
        que tudo escuta e tudo vê,
        próximo à base de Da Nang, esgueira-se
        entre árvores um homem,
        próximo à base cheia de soldados,
        metralhadoras, bombas,
        aviões, cheia
        de ouvidos e de olhos
eletrônicos, um homem, chamado Tram,
entre as folhas e os troncos que cheiram a noite,
cauteloso se move
entre as folhas da noite, Tram Van Dam,
cauteloso se move
entre as flores da morte
Tram Van Dam
quinze anos se move
entre as águas da noite
dentro da lama
onde bate a aurora
Tram Van Dam
onde bate a aurora
Tram Van Dam
com a sua granada
entre cercas de arame
entre as minas no chão
Tram Van Dam
com seu coração
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
sob o fogo inimigo
com o grampo no dente
com o braço no ar
por você por mim
Tram Van Dam
onde bate a aurora
por você por mim
no Vietnam



Ferreira Gullar – Toda Poesia (1950/1980)
Licença editorial para Círculo do Livro por cortesia da Editora Civilização S.A

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