quarta-feira, 30 de novembro de 2016

pontal.foto.grafia

 


Aqui
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe convento
cabrálias esperas relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no AR

caranguejos explodem
mangues em pólvora

Artur Gomes
foto.poesia
in Pontal Foto.Grafia

terça-feira, 29 de novembro de 2016

com uma pedra cravada nos dentes da memória



1985. Bem medisse Uilcon Pereira: Gabriel de Lapuente é a ponte para o outro lado do delírio. Ricardo Pereira Lima a pedra fundamental para o marco mineral no jardim das carmelitas. Tudo isto muito antes de Caio Fernando Abreu sangrar os pulos nas calçadas de Registro e Adalgisa sobrevoar seminua os copos sujos pelos céus de Batatais.

Da janela do bus, meus  olhos ainda sonolentos abrem-se de espanto ao ver um Discco Voador de concreto ao lado de um cruzeiro na porta do cemitério. Estava eu madrugando em JardiNÓpolis para o Primeiro Encontro de Escritores promovido pela revista PHURAFROYDE de onde brotaram os 20 Poemas Com Gosto e as noites com Silvinha na chácara das jabuticabas. 

Artur Gomes

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

jura não secreta


Jura Não Secreta

se eu não beber teus olhos
não serei eu nem mais ninguém
quando roçar teus dentes
desço garganta mais além
quando tocar teu íntimo
onde o ser é mais intenso
jura secreta não penso
bebo em teus cios também



Pessoa

eu não tenho pretensões de ser moderno
nem escrevo poesia pensando em ser eterno
veja bem na minha língua as labaredas do inferno
e só use o meu poema com a força de quem xinga



Política

dois olhos bem abertos
no fundo da superfície
um olho no Planalto
o outro na Planície


Artur Gomes

foto.poesia




sexta-feira, 25 de novembro de 2016

escritema sobre a pedra



escritema sobre a pedra

amor. alguma carne
que não sei o nome
risco do dicionário
esta palavra
que sangrou na língua
fel e faca de um sertão atroz.

a pedra antes do barro
depois a escrita do sagrado
que não houve
urubus sobrevoando a tarde
no quintal das trevas
e o monstro agonizando
no jardim da alvorada.

moscas varejeiras
farejando as mesas 
o cachorro morto apodrecendo
pelos 7 dias 
nem o grito surdo
acordará a infância
e o pomar das tantas
frutas que comi. 

Artur Gomes
foto.poesia






domingo, 13 de novembro de 2016

couro cru & carne viva


eu
poderia abrir teu corpo
com os meus dentes
rasgar panos e sedas
da tua cama arrancar os cobertores
desatar todos os nós
com as unhas arranhar os teus pudores
rasgando as rendas dos lençóis

perpetuar a ferro e fogo
minhas marcas no teu útero
meus desejos imorais
mal/dizendo a hora soberana
com a fora sobre/humana dos mortais
quando vens me oferecer migalha e fruto
como quem dá de comer aos animais

Artur Gomes
foto.poesia

do livro: Couro Cru & Carne Viva

sábado, 12 de novembro de 2016

pátria a(r)mada



pátria a(r)mada

só me queira assim caçado
mestiço vadio latino
leão feroz cão danado
perturbando o teu destino

só me queira enfeitiçado
veloz macio felino
em pelo nu depravado 
em tua cama sol à pino

só me queira encapetado
profanando aqueles hinos
malandro moleque safado
depravando os teus meninos

só me queria desalmado
cão algoz e assassino
duplamente descarado
quando escrevo e não assino

Artur Gomes
foto.poesia
do livro: Couro  Cru & Carne Viva

www.goytacity.blogspot.com 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

com os dentes cravados na memória


estando aqui
tudo respira
tudo pira
tudo paira no ar
como a pupila do teu olhar
quando safira



com os dentes
cravados na memória
soletro te nome
:
C a b o   F r i o 
barco bêbado
fora do teu cais
caminho marítimo
por onde talvez 
já passou meu pai 

Artur Gomes 
foto.poesia






Terra de Santa Cruz


BraZílica Pereira

neste país de fogo & palha
se falta lenha na fornalha
uma mordaz língua não falha
cospe grosso na panela
da imperial tropicanalha

não me metam nestes planos
verdes/amarelos
meus dentes vãos armados
nem foices nem martelos
meus dentes encarnados
alvos brancos belos
já estão desenganados
desta sopa de farelos



ao batizarem-te
 deram-te o nome: puta
posto que a tua profissão
é abrir-te em camas
dar-te em
ferro
ouro
prata
rios
peixes
minas
mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme 

sal gado mar de fezes
batendo nas muralhas
do meu sangue inconfidente
quem botou o branco
na bandeira de Alfenas
só pode ser canalha

na certa se esqueceu
das orações dos penitentes
e da corda que estraçalha
com os culhões de Tiradentes

salve-lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança dos rende-vouz
de impérios atrás 

meu coração é tão hipócrita
que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ou
viram no Ipiranga
 às margens plácidas
uma bandeira arriada 
num país que não levanta. 

fosse o brazil mulher das amazonas
caminhasse passo a passo
disputasse mano a mano
guardasse a fauna e a flora
da fome dos tropicanos
ouvisse o lamentos dos peixes
jandaias araras e tucanos
não estaríamos assim
condicionados
aos restos do sub-humano 

só desfraldando a bandeira tropicalha
é que a gente avacalha com as chaves dos mistérios
desta terra tão servil:

tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza
com a pátria mãe que nos pariu 

bem no centro do universo
 te mando um beijo ó amada
enquanto arranco uma espada
do meu peito varonil
espanto todas as estrelas
dos berços do eternamente
pra que acorde toda esta gente
deste vasto céu de anil
pois enquanto dorme o gigante
esplêndido sono profundo
não vê que do outro mundo
robôs te enrabam ó mãe gentil!

telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava contra
a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
até hoje não vieste à minha porta
- foi u m puta golpe

o poeta estraçalha a bandeira
raia o sol marginal Quinta feira
na geléia geral brazileira
o céu de abril não é de anil
nem general é my brazil

minha verde/amarela esperança
Portugal já vendeu para a França
é o coração latino balança
entre o mar de dólar do norte
e o chão dos cruzeiros do sul 

o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal Sexta feira
nesta porra estrangeira e azul
que a muito índio dizia: 
- foi gringo que trouxe no cu

meu coração marçal tupã
sangra tupi & rock in roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola e guaraná 

o sonho rola no parque
o sangue ralo no tanque
nada a ver com tipo dark
muito menos com punk
meu vício letal é baiafro
com ódio mortal de yank 

ó baby a coisa por aqui não mudou nada
embora sejam outras siglas no emblema 
espada continua a ser espada
poema continua a ser poema

In Couro Cru & Carne Viva - 1987